06 setembro, 2010

IDADE PRA VOCÊ

A idade foi o maior presente que já ganhei.
Quanto mais nova eu era, mais achava que não. E tive muitas pessoas coerentes comigo para afirmar. Depois de um tempo subindo muito, qualquer descuido é um tombo muito grande. Depois de uma sucessão de tombos conheci o inferno. Engraçado ver que não é como pintam. Durante muito tempo tive medo do escuro e pude ver que tudo isso era em vão. Não é escuro no inferno, mas colorido e vivo como o presente que vivo hoje. Tudo era exatamente do mesmo jeito e tudo se movimentava na mesma velocidade, mas eu parecia estar diferente, mais calma, mais devagar. E por mais que odiasse não tinha escolha, passei alguns anos por lá.
Quanto mais velha eu era, mais achava que não. E comecei aperceber que as coisas andavam ao contrário, cronologicamente. Eu crescia e parecia estar voltando no tempo. Me sentia como uma criança que precisa de proteção, que quer sempre os brinquedos que quebraram, e sempre os parentes que foram embora. Ismália enlouqueceu e eu queria ir com ela.
Quanto mais nova eu era, mas frágil era. Sinto vergonha quando olho para trás e vejo a mancha negra que ficou no caminho, mas não foi de propósito. Eu tentava sobreviver em meio ao mundo que me exigiam, atitudes e ações que todos esqueceram, ou quase todos, e que eu nunca vou esquecer. Antes era tudo divertido, tudo lindo. Tudo limpo! Me sinto um elefante, bem grande, com uma cabeça bem grande e um coração partido.
Quanto mais velha eu era, pude perceber, sentada no chão com as lembranças, que na verdade eu não era nada. Eu simplesmente não era.
E agora não tenho coragem de ter esperança, e finjo que tudo vai ficar bem, por que na verdade eu não era. Mas eu queria muito. Queria muito ser quem não era, mas isso eu só aprendi quanto mais velha eu era. E quando enfim fiquei velha aprendi a ser alguém.

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