29 maio, 2010

Missão Preciosa

Cadavérico e envolto em mortalhas,
ele empunhou sua foice necrótica
e montou seu cavalo fantasma.

Da interseção de luzes e sombras
mesclavam-se sons e silêncio
anunciando sua nobre chegada.

Exterminou centenas de vidas
traçando a tênue passagem
da matéria ao espectro.

Então o ceifador sinistro sorriu,
ao cumprir sua missão preciosa
naquele conflito degradante.


- Mensageiro Obscuro.
Agosto/2009.


Foto: "Death on The Pale Horse" por Gustave Doré.

21 maio, 2010

19 maio, 2010

Invisivel???


O NADA
cumpriria seu papel....
Se fosse apenas Nada o sabor que de rastro ele nos deixa
Se fosse apenas e simples NADA( )Após os nós que se afrouxam
Se assim o fosse sem o sentirmos
sem aninhar-se no recurso do ódio
Sem o gosto do que haveria
ou deixou de ser
Mas o nada em nós as vezes teima em ser preciso

O nada
submerso nUma caixa preta
Sem fundo
Fazendo ponte é Uma escada
degraus em queda livre
brindando ao abismo
numa canção sufocada

NADA de cores & sons
Nada de imagens que lhe sejam próprias
Um galho seco sem florir
Areia que não faz brotar
Um sorriso abafado após tamanha espera
Olhar desviado pra esconder do Alvo ,sua atenção
anular intensa intenção


Nada no tom
Nada traz ninguém que possa ouvir ou socorrer
além de figuras espectrais

Nada
uma
Declaração de amor que foi & sem ter sido dita
O beijo abandonado
a esquina tragada
a luz manchada
memória violada

Um Nada sequer que dê o sentido
Nada é um poema que se anula por não haver o Eco
Onde jaz a interpretação
Nada é
Quando se anulam os sentimentos
O nada assim é o Tal
Contra o Qual eu me armo com palavras
E havendo palavras
Um toque responsivo de onde quer que seja
O nada então se põe a decrescer!

Exúvia Hannar(Poemista)

Carne e Álcool


O vinho.
Quem não deslumbra o sabor do vinho
Que percorre o tato carnal do desejo?
Ah, a carne e o álcool são prazeres
Nunca esquecidos por guerreiros,
Plebe e poetas.
A carne.
Quem não ama saborear a carne
Entreaberta na luxúria dos tonéis de cetim?
A bem-amada concubina se entrega
Como a uva se deixa fermentar
Pelo tempo em que todos anseiam.
O álcool.
Ente quase etéreo que flutua
No prazer instintivo jamais esquecido
E se dissolve com o ar
Impregnado do vício carnal do amor.
Deuses amam o vinho,
Demônios dançam sobre o álcool,
Homens e mulheres se consomem
Em atos lascivos frenéticos
Abençoados por deuses e demônios.
A mente e a alma são testemunhas
Dos seres trôpegos entrelaçados.
Carne e alma dissolvidas no álcool.
O gozo, licor dos lúbricos amantes,
É o destilado da vida fermentada.
A carne e o álcool,
O álcool e a carne.
Um subterfúgio ácido,
Uma fusão constante de desejos,
Uma volúpia torta sob toques trêmulos.
Os beijos, são fortes aromas da vivacidade
Que se espalham pela alcova enegrecida.
E, é na alcova gótica dos sentidos,
Que por fim, no murmúrio findo da libido
Carnes exauridas de álcool
Adormecem sorrindo.
Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2002.
.

18 maio, 2010

Maria Cândida

À meia-noite de um luar de holofote
Chegou à praia o cadáver de Maria Cândida.
Embalada, aos tropeços, pelas espumas sujas,
Navegando em garrafas pet e camisinhas usadas,
Veio boiando serena, de barriga para cima,
Aportar sua última nau na Praia de Icaraí.

Sua pele branca refletia a luz da lua,
E seus cabelos aloiravam-se ainda mais,
Alaranjados pelos postes plantados à beira-mar.
Suas palmas abertas, seus lábios entressussurros.
- parecia até rezar! Não fossem as gigogas como braceletes,
e a espuma a brotar de sua boca roxa.

Florescente, brilhava a donzela sobre a areia,
Captando as luzes, refletindo, multiplicando,
Destacando-se como águas-vivas em meio à multidão.
Assim vi Maria Cândida chegar à praia, pela última vez.
Boiando como Ophelia, linda como deusa.
Morta, como cada fibra seca de meu coração-passa.

Nem de longe lembrava o anjo em construção
Que vi florescer em meio aos caos suburbano.
Não havia naquele corpo inchado e malcheiroso
Sequer um relance daquele sorriso tímido e inocente,
que se interrompia para sussurrar para si palavras de conforto,
na alcova infantil e imprópria para o amor.

Parecia sorrir levemente, chorar sem lágrimas,
E se não fosse perversão demais pensar assim,
Diria que seus seios virginais se intumesciam,
Conhecendo o ineditismo de arrepios de prazer,
Ansiando pelo toque de minha língua grossa
Em suas auréolas rosadas de gosto salgado.

Em questão de minutos, o cadáver de Maria Cândida,
Que resistira às marés e às mordidas de peixes,
Foi engolido pela multidão de curiosos.
Repórteres, corredores noturnos, babás assanhadas,
Que há pouco se deixavam bolinar no calçadão,
Cercaram a minha Ophelia e me privaram de minha ultima Visio.

Sentado à beira do caminho, como o Rei,
Pensei em Maria Cândida viva, seu sorriso frio,
Em suas maneiras de menina mimada e audaz.
Lembrei-me do desprezo em seus olhos azuis quando,
Sob a luz da mesma lua cheia, decidi declarar o meu amor...
- Não consigo esquecer aquela risada...

Maria Cândida flanou como se a terra lhe fizesse um favor
Em sustentar seu peso sobre si, seus pés de fada.
Não juntou em torno de si amigos leais, nem deu amor,
Olhava de cima a todos os outros mortais que a rodeavam,
Exigindo devoção de seu séqüito de tolos,
Bebendo puxa-saquismo como quem bebe beaujolais...

Assim, vendo todo aquele circo de mídia armado na praia,
Sucesso de público e fracasso de crítica, perfumaria,
Assunto vespertino para ajudar a vender juicer,
Revi Maria Cândida flutuando entre as espumas,
Chegar à praia refletindo a luz da lua,
E achei que ela ficava bem mais bonita assim...
                                                                     ... morta.

16 maio, 2010

A palavra nua

Escrevo por linhas indecisas
em folhas feitas de tempo.
O verso tem a força de um sonho.
A dor é profunda como a noite.
O sofrimento é lento e brando.
O meu amor é o amor do mundo.
O meu medo é o medo do mundo.
Dentro, a fome, a falta, o sussurro.
Fora, a fúria, a farsa, o princípio.
E, no meio, a palavra nua.

11 maio, 2010

Apagado

O lápis escreve
por linhas tortas
o meu destino.

Rasura, rabisca,
o que não me importa
diante de tanto rabisco.

A escrita se espreme
entre as linhas da vida.
Constrói o caminho íngreme
de terras longínquas.

Sua borracha
pende para o acaso.
Ela me faz dono do esquecimento
na lida persistente com o apagado.

08 maio, 2010

A carne



Por muito tempo venho pensando sobre o escuro leito de minha alcova no ato de viver. Não o conceito em si, mas como realmente atuá-lo.

Como se fosse algo de dentro de minha carne, eu processo a vida nas entranhas de minhas glândulas mortas. Sem pudor, sem rubor, contemplo horrorizada o efeito desse mecanismo no processo de minha putrefação.

Doo-me suavemente à tentação do Nada.

Se a vida se alimenta de mim, eu me alimento da morte e o verme, da minha carniça.

O meu sangue é o mais fino vinho, e o meu corpo é o banquete nupcial. Que a noite seja nossa testemunha.

Venha, ó senhor dos túmulos, meu noivo, meu amigo, consumir-me a dor, a paixão, o ventre, os olhos. Venha infundir-me teu veneno. Venha consumir-me a carne.

Venha, pois nossa única certeza é a morte, e na arte cênica de atuarmos a vida somos más atores.

07 maio, 2010

Um convite aos Contistas





Caros amigos tavernistas!!!

Criei em conjunto com o amigo Rodrigo Vieira um espaço destinado a pequenos contos que gostaria de dividir com aqueles que se habilitarem!

O blog é Entre a Rua e o Meio Fio . Clique no link, confira, e mande seu conto pro pakkatto@gmail.com com o título de Entre a Rua e o Meio Fio.


Flores?

De vez em quando buquês...
Por muitos anos eu ouvi que...

_ Flores pra quê? Se elas murcham!
Aquelas então que os ambulantes
vendem na porta do cinema
ou no barzinho
são troféus de puta.
(Isso ele me dizia)

Ah...muitas pétalas eu guardei.
Até as que não tive,
mesmo que murchas
mesmo que despedaçadas.

Flores preferidas?
Margaridas.
De vez em quando as colhi nos campos
que passei...
fiz bem-me-quer, malmequer,
bem-me-quer, malmequer...
deve ser por isso que nunca as recebi
de um rapaz.

Eu as despetalava.
Despetaladora de margaridas (risos)
Ninguém nunca me presenteou com uma delas
Via as artificiais, as naturais,
nas vitrines, nas floriculturas,
nas calçadas, nos enfeites, nos jardins...
Despetaladora de margaridas.
E algumas rosas do passado,
espinhos que cortam as mãos...

Flores pelo caminho?
De vez em quando...
muito de vez em quando
buquês...
vasos solitários...

Um dia ...quem sabe.Para enfeita o colchão delas
e amar entre as pétalas.

Por Andréa de Azevedo.

05 maio, 2010

Musa do túmulo




Vi entre os arbustos sua imagem translúcida
Vi um olhar dizendo adeus...
Eu chorei como quem morre e não deixa de existir
Eu morri.

Escavei seu túmulo procurando uma célula que fosse
Precisava de uma prova concreta
Precisava de um tapa na cara
Não queria acreditar que te perdi.

Ali estava eu, caída ao chão
Desolada e tão perdida
Abraçada ao seu corpo em decomposição.

O que eu era, o que seria de mim?
Você era meu tudo
Tudo que perdi.






Eu procurava nos seus olhos
Algo do seu eu,
Buscava as respostas que ainda faltam,
Para saber que a amizade não é eterna
Para crer que te terei para sempre...
Você foi um novo botão no meu jardim,
Botão que cuido com tanto amor
com todo carinho
E há de ser uma linda rosa vermelha
Para alegrar os meus dias, minhas noites...
Queria você para alegrar minha vida,
Philos e Eros num confronto,
Uma guerra com palavras,
Em pensamentos
Que me torturam, me condenam
Ao platonismo das eras...
Penso em ti, vejo seu rosto,
Um ídolo de barro, um poeta morto,
Um amor amigo de devaneios, desvairios
Palavras tolas, todas perdidas
Nas inúmeras voltas que o mundo dá.
Vejo uma criança perdida na noite
Perdido dentro de si mesmo.
Querendo apenas respostas para sua vida
Que busca um rumo
O caminho para a felicidade...
Eu busco em seu olhar
Um abrigo, um consolo,
Um abraço nas noites de frio,
Um beijo doce,
Um carinho meu amigo.
Pensar em você refaz o dia
Transforma tantas lágrimas de dor
Em um novo botão de rosa,
Uma esperança a cada sorriso seu.
Ah meu amado desconhecido,
Como uma virgem nos errantes sonhos
Brisa no mar,
Preenche o meu vazio com sua luz
Molha meus lábios com seu beijo...
Sacia minha sede do teu corpo
Me faz descobrir um mundo novo
Onde haja muitas flores
E você desabroche para mim
A cada amanhecer...
Penso e logo faço.
Sou o imediato.

Por Andréa de Azevedo.

04 maio, 2010

Boceta Linda





















Boceta linda
Fonte de prazeres
Com mil tons de vermelho

Eu a vejo desnuda
Isenta de penugem
Em formato de boca
Como quem pede um beijo

Boceta linda
Não quero simplesmente
Tornar o meu desejo
Em uma lança ardente

Eu quero conquistá-la
Vou vê-la bem de perto
Pulsando como estrela

Vou provocar o grito
Vou procurar o grelo
Vou vasculhar a fundo

Ah! Coisa divina
Feita em carne
Sem guarda
Sedenta
Sugando

Ah! Coisa divina
Ser escravo
Não da mulher
Mas da flor que carrega
A essência da fuga
Do que é infeliz e concreto

Ah! Boceta
Boceta linda

Sagrada Prostituta

Uma freira desfilou sorrindo
Perto de uma igreja vazia,
Com seu jeito faminto e lascivo
Revelou tão muda o seu erotismo.

O hábito de fé e puritanismo
Amarrotava contra meu corpo
Enquanto ela ria e chorava,
Tocamo-nos com lascívia.

Fez do altar uma grande alcova,
Profanando hóstias e vinho
Para nosso banquete, assim,
Transgredia como dama herege.

Libertou-se de dores e pudores
Como uma sagrada prostituta
Em nosso intenso culto erógeno,
Tornando-me seu ídolo fálico.


- Mensageiro Obscuro.
Março/2008.


Foto: "Erotic Nun" por Clovis Trouille, 1944.
Portal do artista: Clovis Trouille

03 maio, 2010


Quadrilha
(Em homenagem ao autor Carlos Drummond de Andrade)

Era festa junina
ela não tinha par
para a quadrilha.
Entraram na roda
Dançaram a três:
ela, a amiga
e o namorado
da amiga.

Mudou a música
Mudou a trilha
Entraram na roda
Dançaram a três:
ela, a amiga
e o ex-da amiga.


Mudou a música
Mudou a trilha
Entraram na roda
Dançaram a três:
ela com o ex-da amiga
e a amiga.


Mudou a música
Mudou a trilha
Entraram na roda
Dançaram a três:
ela com o ex-da amiga
e a ex-amiga.
A festa acabou.
A música parou.
A trilha mudou.
A roda se desfez.
Dançou: ela,
o ex-dela e da amiga
e mais a ex-amiga.
Por Andréa de Azevedo.

01 maio, 2010

A solidão

















A solidão é como dedos que não sentem.
Não sentem dor
Não sentem frio
Não sentem Amor.
Só a sensação insuportável de não sentir.

O amanhã do mundo




















I

O amanhã do mundo me persegue.
Busco refúgio em vãs tentativas.
Sou sólido e reconheço os limites dos sonhos.

Nego, de forma recorrente, o vazio do Céu do Novo Mundo.
Há um Deus que olha por mim, escondido nas trevas dos átomos.

O amanhã do mundo nunca chega.
Madrugadas perdidas, com medo do sono e de perder
esse lindo mo(vi)mento de (mu)dança.

Hoje, os males da Caixa de Pandora ainda assolam o globo.
Homens tramam, em segredo, o seqüestro de toda esperança.
E o amanhã do mundo é só promessa.

E, eu, tendo desistido da arrogância,
Abraçado aos exemplos de mí­sticos ascetas,
Procuro em meio às palavras o silêncio.

E, exausto, durmo tranqüilo o hoje dos poetas
Para acordar no amanhã dos homens
E fazer a minha parte no amanhã do mundo.

Um amanhã que nunca chegará pra mim
Mas está comigo em sonhos de paz e de guerra
E a toda manhã me persegue.

Espelho



Fico triste quando olho no espelho
E contemplo minha face
Não sou o que vejo
A minha frente encontra-se uma pseudo
Moldada pelas moléstias do mundo
Petrificada pelas feridas mal cicatrizadas

Choro copiosamente na frente do espelho
Como se quisesse que alguma lágrima
Pudesse dissipar as nuvens negras
Que de mim se apoderaram
Arrancada de minha inocência de outrora
Estragada pelos impiedosos algozes

Fecho meus olhos diante do espelho
Prefiro não ver o que me tornei
Tenho medo da minha maldição
De muita dor em muitas angustias
Não preciso de mais nenhum fantasma
A mim basta o que está diante do espelho